Paredes sustentadas por escoras, janelas quebradas, fiação exposta e refeitório fechado na hora da merenda. Imagens de problemas como esses começam a se espalhar nas redes sociais.

 

Inspirados pela catarinense Isadora Faber, 13, estudantes de todo o país criaram seus “diários de classe” na web para mostrar as deficiências estruturais e pedagógicas das escolas públicas em que estudam.

 

Isadora foi pioneira com sua página sobre uma escola municipal de Florianópolis. Ganhou apoio de mais de 300 mil pessoas na internet e, após receber críticas, a instituição foi reformada.

 

Desde então, a ideia se espalhou. A Folha localizou ao menos 30 páginas. Alguns estudantes relatam melhorias. Outros, represálias.
A escola de Emerson Mendes, 17, em Itamaraju (BA), ganhou cortinas para bloquear a luz do sol que atingia os alunos e os impedia de ver as anotações na lousa. Também voltou a ter lanche, que não era servido havia dois meses.

 

As portas do banheiro feminino, que estavam soltas, foram consertadas. “Mas ainda temos fechaduras quebradas e fiação exposta”, diz.
A Secretaria de Educação da Bahia diz que fará reformas no local.
Aluno de uma escola de Maceió (AL), Juan Douglas de Sá, 13, chamou a atenção para um bebedouro quebrado e para os laboratórios que não eram usados. Deu certo.

 

Mas nem todas as iniciativas são bem recebidas.
“Falaram que eu estava deixando a escola com um telhado de vidro” ao publicar os problemas, conta Cristiano Aro, 16, de Cotia (SP).

 
 

Igor Castro, estudante que criou página sobre escola em Curitiba – Foto: Guilherme Pupo/Folhapress

 

Aluno do 2º ano do ensino médio em Curitiba, Igor Castro, 18, conta que sofreu represálias de uma professora, que o aconselhou a mudar de escola. “Parece que querem que os problemas sejam escondidos”, diz o aluno, que também foi chamado para conversar com o diretor.
“Pedi que ele apagasse alguns comentários ofensivos. Se o objetivo é melhorar a escola, ele não pode deixar que isso se perca”, conta o diretor, Joaquim Faustinoni.

 

Para Vania Kenski, professora de pós-graduação em educação na USP, as escolas precisam aprender a lidar com o uso da tecnologia. “Estamos em um processo marcado pela transparência do que acontece atrás dos muros da escola. É uma nova forma de cultura. E é irreversível.”
Diretora da ONG Todos Pela Educação, Priscila Cruz diz que os “diários de classe” devem se preocupar também em apontar soluções e pontos positivos, e não apenas em expor os problemas.

 
 

CARTEIRAS E REFORMAS
A página que Guilherme Patrício, 14, mantém com a ajuda de um colega para falar dos problemas da escola ganhou, em menos de um mês, 800 seguidores. Metade veio em uma só semana.
Agora, ele tenta organizar o tempo para atualizá-la ao menos duas vezes ao dia junto com Victor Nascimento, 14.

 

A ideia é colocar fotos, contar sobre o dia a dia e falar sobre os problemas da Escola Estadual São Paulo, no centro da capital paulista. A maioria das queixas está relacionada à infraestrutura.
Uma das reclamações refere-se às janelas (que começam a ser trocadas) e carteiras quebradas. As rachaduras também são alvo do olhar atento do garoto, que sonha em fazer engenharia.
Enquanto isso não acontece, Guilherme acompanha as mudanças na escola, onde estuda há dois anos. E diz que tem o apoio de colegas e professores. “Eles pedem nossa ajuda para tentarmos melhorar [a escola]”, conta.
Guilherme comemora duas conquistas: a instalação de uma porta em uma sala de aula e o “fim” de um buraco em um piso na área externa. Agora, quer cobrar segurança. “Aqui perto está cheio de usuários de droga. Já vi uma colega ser assaltada.”

 

Mãe de Guilherme, Ivaneide Araújo, 47, diz que aprova a iniciativa dos garotos e espera por mais mudanças.
“Achei excelente. Vi que, depois da página, já tomaram algumas atitudes. É até pouco perante o problema que há por lá, mas já é um início.”
Segundo Victor, que estuda no local há quatro anos, o próximo passo é fazer uma campanha para preservação -recentemente, a instituição foi alvo de uma depredação por alunos. Doze acabaram transferidos.
“Uma coordenadora deu a ideia. Além da página, vamos fazer cartazes e espalhar na escola. Queremos que isso não aconteça mais”, diz.
A Secretaria da Educação de São Paulo diz que a escola recebeu 160 carteiras novas e que passará por uma reforma geral, ao custo de R$ 4,6 milhões. A previsão é que a obra comece no primeiro trimestre de 2013.

 

FONTE





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