Trabalho em uma casa de shows frequentada predominantemente por jovens na faixa etária de 18 anos, e que é popularmente conhecida como “pancadão” ou “ring-night”. Lá , o que se toca é o funk. Não preciso dizer mais nada, nê ?! O que acontece dentro do salão, e até do lado de fora, faria Calígula corar de vergonha. Ontem, o tema do baile foi o Dia dos Namorados. Como se não bastasse a pornografia explícita nas letras daquilo que eles teimam em chamar de música, houve distribuição gratuita de camisinhas. Realmente muito apropriado e inspirador. Entre um “vem que pá, que é nois que tá” e um “nois pega,mas não se apega”, atônito, forcei-me a continuar o exercício do meu ofício sob uma espermatorréica constelação de preservativos usados pendurados nos galhos das árvores. Como todo bom vendedor, tentei entrar no clima e soltei um “Batidas do Tiozão, apenas R$ 1,00…e eu bato com carinho !”.

 

O celular vibrou. Era uma mensagem de texto para a minha filha adolescente, que de vez em quando usa o aparelho. Tratava-se de um convite de uma amiga para irem juntas ao “ring-night” no próximo final de semana. Foi ai que eu tive a epifania : passou da hora de vir outro dilúvio bíblico.

 

Este post foi inspirado no artigo Namorar Saiu de Moda do sensacional blog Vassourando da ótima Bruxx. Aproveito para responder à pergunta que ela faz no começo do post : Sim e não, namorar ou ficar não é uma mera questão de modismo. O “ficar” , em contrapartida do “namorar” , não é uma onda, é o que se tem como normal hoje em dia. Convivemos com a primeira geração nascida e criada dentro dessa nova filosofia de vida. Para essa nova geração, “namorar” é algo de que eles ouviram falar, assim como nós, da geração anterior, ouvíamos falar dos tempos em que só era permitido namorar em casa e sob a supervisão dos pais.

 

O tempo insiste em passar e transformar a compreensão da realidade e das verdades inquestionáveis. Não há certo ou errado, há apenas o tempo que já foi, o agora, e o tempo que virá.

 

Embora eu não tenha a capacidade de compreender o âmago do “ficar”, tento me atualizar e assimilar o conceito catedraticamente. Nas minhas observações dos “ficantes” no seu habitat natural, as baladas, constatei que :

 

1 – A quantidade de “ficadas” é mais importante do que a qualidade.

2 – É proibido saber o nome da pessoa com a qual se fica. O “ficar” tem que ser completamente impessoal para não correr o risco de ser confundido com um namoro.

3 – A “ficante” sempre usa um nome falso caso a pergunta “qual é o seu nome ?” surja.

4 – O “ficante” sempre dá um nome falso, normalmente a de algum inimigo , para o hipotético caso de uma gravidez.

5 – Em uma balada, a quantidade total de saliva e outros fluídos corpóreos transferidos entre os baladeiros em uma só noite, daria para encher uma piscina olímpica.

6 – Em uma típica noite de balada é como se todos os “ficantes” estivem nadando dentro da piscina do item 5.

7 – Depois da noite em que aparecer um mísero baladeiro tuberculoso, a balada fechará por falta de clientes.

8 – O capeta existe e proteje todas os “ficantes” e baladeiros contra as probabilidades matemáticas.

 

O Dia dos Namorados só existe ainda pela insistência do comércio em atender às demandas dos costumes antiquados dos meus contemporâneos, ou seja ,o nicho de mercado constituído de gente ultrapassada e démodé como eu. Que se crie então o Dia dos Ficantes. E viva a modernidade antes que o mundo se acabe.

[ Originalmente postado no blog Boteco Móvel em 12/06/2011 ]




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