Gramsci e Escola de Frankfurt, diferenças e semelhanças



Aproximações e divergências entre Gramsci e a Escola de Frankfurt

 

 

Semelhanças:
São os dois maiores exemplares do assim chamado Marxismo Cultural, porque são de inspiração marxista e porque colocam toda a ênfase em dominar a seara da vida cultural.

Ambos perceberam que a revolução socialista tinha falhado na Europa Ocidental e procuravam entender o porquê. Ambos concluíram que o marxismo clássico dava pouca ênfase à cultura e se concentrava excessivamente na economia. Ambos rejeitaram a ênfase economicista do marxismo.

Ambos rejeitavam o assim chamado Determinismo. Para Marx, e sobretudo na ortodoxia que se criou depois de Marx, o socialismo seria vitorioso inevitavelmente. Para Gramsci e os frankfurtianos, certas ações teriam que ser levadas a cabo para garantir o advento do socialismo.

Gramsci e a Escola de Frankfurt surgiram mais ou menos na mesma época,os anos 20, embora de formas completamente  independentes.

Em 1923 foi fundado o Instituto de Pesquisa Social , em Frankfurt, que veio a congregar os pesquisadores que ficaram informalmente conhecidos como a Escola de Frankfurt .

Em 1926 foi preso  pelo regime fascista de Mussolini o intelectual italiano Antonio Gramsci, que escreveu a sua obra nos 10 anos que passou na prisão. Algumas décadas depois de sua morte  seus escritos foram reunidos e publicados com o título Cadernos do Cárcere.

 

Diferenças:
Gramsci estava preso, os frankfurtianos não. Isso significa que a quantidade de informação contemporânea, que o acesso a livros que estavam sendo publicados naquela época, evidentemente foi maior para os teóricos da Escola de Frankfurt do que para Gramsci.

Os frankfurtianos trabalhavam em condições incomparavelmente mais vantajosas. Circulavam em universidades, nos centros de pesquisa, excelentes bibliotecas, primeiro na Alemanha e depois nos Estados Unidos, para onde precisaram  ir fugindo do nazismo.

Por outro lado, Gramsci foi obrigado a restringir seu foco em poucos temas se comparado a vastidão do cabedal dos teóricos da Escola de Frankfurt.

A Escola de Frankfurt foi um movimento de crítica a vários aspectos da sociedade capitalista ocidental cristã. Criticava duramente essa sociedade sob todos os aspectos possíveis e imagináveis, mas, a bem da verdade, era uma escola eminentemente crítica mas não propositiva. Diferentemente de Gramsci, a Escola de Frankfurt nunca teve um projeto bem delineado, claro, meticulosamente planejado de tomada do poder.

Antonio Gramsci acreditava que o poder deveria se dar mediante a gradual ocupação dos espaços na seara cultural, sobretudo nas universidades, mas também nas escolas de modo geral, nos clubes, nas associações de bairro, nas igrejas, em todas as instâncias da assim chamada sociedade civil, ou seja, naquilo que está fora do governo.

Gramsci achava que para tomar o governo nos países em que a sociedade civil era forte, como o são no acidente, era necessário primeiro tomar a sociedade civil.

Na Rússia, o poder do Estado foi tomado diretamente porque a sociedade civil russa era insignificante em sua extensão e o Estado dominava tudo. Gramsci acreditava que esse método não funcionaria nos países do ocidente, onde as sociedades civis eram, e ainda são, verdadeiramente colossais em sua amplitude de interesses. Esse quadro significaria que qualquer revolução comunista armada seria algo que duraria pouco tempo porque haveria resistência muito grande da sociedade civil, diferentemente da Rússia. onde a sociedade civil era raquítica.

O evento na Rússia era chamada por Gramsci de Guerra de Movimento, ou seja, guerra direta. Ele achava que o que funcionaria no ocidente seria a chamada Guerra de Posição, semelhante ao que houve na Primeira Grande Guerra Mundial. A tática seria ocupar os espaços gradualmente até obter uma vantagem estratégica sobre o seu inimigo. Gramsci preconizava a necessidade de tomar primeiro a sociedade civil e só depois começar a se infiltrar no próprio Estado. Obtendo o poder cultural, moldando as idéias e esquerdizando as consciências, mudando assim o senso comum das pessoas, aquilo que elas normalmente pensam e creem seria obtida a vitória na guerra cultural e alcançada a Hegemonia Socialista em detrimento da assim chamada Hegemonia Burguesa. Estaria assim preparado o caminho para a vitória no campo político. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil. Gramsci foi , portanto,muito mais inteligente do que os frankfurtianos.

A Escola de Frankfurt adotou de Marx a Vertente Hegeliana ( do filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel ) que se preocupava com a chamada alienação, não propriamente com a exploração econômica. O trabalho capitalista faria com que o trabalhador se sentisse afastado do produto do próprio trabalho; ele não se identificaria com aquilo que ele mesmo faz, sobretudo com a mecanização do trabalho e o advento das linhas de montagem; o trabalho estupidificaria o homem. Os frankfurtianos enxergavam essa alienação até na produção cultural massificada.

Gramsci não ligava para a questão da”alienação”. A preocupação de Gramsci era com a ascensão da classe operária ao poder e acabar com a exploração e o domínio da burguesia. O objetivo de Gramsci era relativamente tradicional, próximo ao de marxistas clássicos, como Lenin. Diferia nos métodos. Gramsci via com bons olhos a mecanização do trabalho. Ele acreditava que os trabalhadores teriam assim mais tempo livre para a conscientização revolucionária.

A Escola de Frankfurt era, ao menos no seu início, profundamente hostil à ciência ocidental. Gramsci achava que um regime socialista, uma vez constituído, iria precisar da ciência.

Herbert Marcuse era um dos teóricos da Escola de Frankfurt. Dava ênfase frequentemente à liberação sexual, sobretudo em um livro intitulado Eros e a Civilização. Marcuse tentou desvirtuar as obras de Sigmund Freud, um antissocialista fervoroso, a favor de Marx. Apregoou o uso de minorias sociais no lugar dos operários, que haviam melhorado de vida, se “aburguesando”, e que não queriam mais fazer a revolução. Estudantes, homossexuais, negros, mulheres, qualquer minoria real ou supostamente oprimida formam o que Marcuse chamava de Coalizão dos Oprimidos e são usados até hoje como massa de manobra com finalidades esquerdistas. Gramsci nunca pensou em usar tal estratégia, talvez por não ter vivido o multiculturalismo e a revolução sexual. Gramsci foi preso nos anos 20 e morreu nos anos 30. Marcuse erigiu suas teses nos anos 50 e 60.

Rodrigo Jungmann é professor de Filosofia na Universidade Federal de Pernambuco.



Posts Relacionados

Deixe um comentário

error: Content is protected !!