A sociedade humana foi estabelecida em cima da obediência. Em grupos gregários organizados, se os indivíduos não obedecerem às leis, regras e normas vigentes para o bom andamento do grupo, a anarquia se estabelece e o caos impera.

Desde a infância somos ensinados a obedecer – como bons cãezinhos em treinamento. Sim, precisamos desse treinamento civilizador para depois saber conviver com os demais em sociedade, contudo este treinamento, em certa medida, acaba com uma preciosa característica humana que é a criatividade e também contribui para embotar ou diminuir a consciência de cada um. Pessoas obedientes costumam abrir mão de sua autonomia e, muitas vezes, até de sua responsabilidade.

Ultimamente tenho refletido bastante sobre os efeitos da obediência humana à autoridade. Se nos ativermos à história ela está repleta de fatos danosos resultantes da obediência à autoridade: envio à tortura e fogueira pelos padres durante a Inquisição, brutalidades e assassinatos por soldados e oficiais nazistas nos campos de concentração, só para dar dois exemplos.

Atualmente a mídia me traz alguns exemplos das conseqüências da obediência irrefletida: as pessoas acreditam em tudo que é dito pelas “autoridades”, não importa de qual área seja, basta ser considerada uma autoridade pela sociedade em geral. Esse comportamento facilmente leva a um outro já apresentado aqui (Mentalidade de rebanho explicada)  ou seja, a obediência sem reflexão pode ser danosa para quem a pratica e chegando até a ser danosa ao outro/s como foi verificado nos experimentos de Milgram.

Em 1961 Stanley Milgram conduziu na Universidade Yale um experimento para entender melhor a obediência à autoridade: “Realizei uma experiência simples na Universidade de Yale para testar até que ponto um cidadão comum poderia infligir dor a outra pessoa simplesmente porque essa ordem lhe foi dada por um cientista experimental. A autoridade rígida foi oposta aos imperativos morais mais fortes dos testados contrárias a ferir os outros. Com os ouvidos retinindo com os gritos das vítimas, a autoridade vencia na maioria das vezes. A extrema disposição de adultos obedecerem totalmente ao comando de uma autoridade constitui o principal achado desse estudo: fato este que necessita, com maior urgência, de uma explicação.”

A experiência consistia em administrar choques elétricos (o sujeito acreditava nisso) a um outro indivíduo a cada vez que o mesmo errasse uma resposta dada numa sequência de perguntas. Os choque iam de 15 a 450 volts.

Segundo Milgram: “Para muitos, a obediência é uma tendência comportamental profundamente arraigada, chegando mesmo a ser um forte impulso que sobrepuja o treinamento em ética, solidariedade e conduta moral. Muitas pessoas eram, de certa forma, contra o que fizeram ao aluno e muitas protestaram ao mesmo tempo em que obedeciam. Algumas estavam totalmente convencidas da crueldade de suas ações, mas não podiam se decidir a romper abertamente com a autoridade.”

“Dos quarenta sujeitos que participaram da primeira experiência, 25 obedeceram às ordens dos experimentador até o final, punindo a vítima até que chegassem ao mais potente choque que o gerador podia oferecer. Depois que 450 volts foram aplicados por três vezes, o experimentador encerrou a sessão. Muitos do pacientes obedientes suspiraram então de alívio, enxugaram suas testas, esfregaram os olhos com os dedos ou nervosamente puxaram seus cigarros.”

Em suas análises, Milgram relembra o que disse Hannah Arendt sobre a banalidade do mal durante o julgamento de Adolf Eichmann que ela classificou não como monstro, mas como um simples burocrata cumprindo ordens. “Depois de testemunhar centenas de pessoas comuns se submeteram à autoridade em nossas próprias experiências, devo concluir que a concepção de Arendt a respeito da banalidade do mal está mais próxima da verdade do que se ousaria imaginar. As pessoas comuns que administraram choques na vítima o fizeram devido a um senso de obrigação – uma impressão de seus deveres como paciente – e não devido a tendências peculiarmente agressivas.”

(…) “A essência da obediência é que uma pessoa passa a se ver como o instrumento que executa os desejos de outra e que, portanto, deixa de se considerar responsável pelas suas ações. A moralidade não desaparece – adquire um enfoque radicalmente diferente: a pessoa subordinada sente vergonha ou orgulho, dependendo de quão adequadamente executou as ações solicitadas pela autoridade.

O idioma possui inúmeros termos para determinar esse tipo de moralidade: lealdade, dever, disciplina são todos termos bastante saturados de significado moral e que se referem ao grau com o qual uma pessoa cumpre suas obrigações para com a autoridade.”

(…) “Há, assim, uma fragmentação da ação humana total; ninguém é confrontado com as consequências da sua decisão de executar o ato mau. A pessoa que assume a responsabilidade desapareceu. Talvez seja essa a característica mais comum do mal socialmente organizado na sociedade moderna.”

Talvez nos dias atuais essa experiência tivesse um resultado diferente porque estão soprando ventos de rebeldia pelo planeta, mas não creio que seria uma diferença muito significativa, pois embora haja uma confessa rebeldia social e política, por outro lado os seres humanos ainda são condicionados pela obediência à autoridade, haja vista como obedecem às recomendações da ciência médica a respeito das vacinas (cada dia mais alvo de suspeitas).

Finalizando, quero deixar o alerta sobre a obediência sem reflexão ou sem consciência. Não há autoridade que seja dona da verdade, mesmo a ciência volta e meia desdiz ou refuta conceitos e teorias anteriores tidos como acertados.

Para evoluir a consciência é necessário questionar, questionar sempre!

 

[ PUPLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG EXPANSÃO DE CONSCIÊNCIA ]
 
 



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Tarcísio de Freitas é a favor da vacinação obrigatória e da perseguição aos não-vacinados



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